⋆ Doses de Mikah à gosto ⋆

A menina que inventava amigos e não concluía projetos


BEDA2026 Texto 29/31


Se eu soubesse desenhar de forma a reproduzir no papel ou no digital exatamente aquilo que tô visualizando, eu desenharia o entreblogs.

Hoje muitas pessoas se empolgaram em criar posts colaborativos naquela lógica de perguntar algo lá e a galera responder, com isso durante todo o dia o chat ficou movimentado e, diferente do outro dia que fizeram esses posts colaborativos, dessa vez eu consegui acompanhar.

Todo esse movimento por sí só fez brotar essa ruma de palavras que poderiam ser 3 postagens distintas, mas de alguma forma que consegui conectar tudo pra fazer uma só, me acompanha que você vai entender.

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Quando eu era criança/pré adolescente eu lembro que as meninas da escola sempre tinham entre elas uns cadernos pequenos em que cada página era uma pergunta e várias pessoas respondiam.

Agora vem um momento história triste do Naturo: eu nunca recebi um desses pra responder. Um dia eu resolvi fazer o meu, mas eu tinha muita vergonha de pedir pras pessoas responderem.

Na época eu só tinha "uma amiga" que morava na mesma rua que eu, mas estudávamos em escolas diferentes, praticamente escolas rivais e ao contrário de mim, ela tinha um monte de amigos na escola e por onde quer que ela fosse, muitas dessas amigas iam lá na casa dela e eu ficava observando da minha casa, e na época me contentava em só observar.

Coloquei o termo "uma amiga" entre aspas antes porque hoje eu sei que não era amizade, era só conveniência mesmo, não tinha muitas crianças da nossa faixa etária na rua e nós éramos as únicas com idades próximas, nos conhecemos quando me mudei pra lá aos 7 anos, ela tinha 8.

Voltando ao caderno, eu queria que ela respondesse, já que ela era a única pessoa com quem eu não teria uma crise de ansiedade só de pensar em falar disso.

Acredito que nessa época já tínhamos 11 e 12 anos, mas pra não deixar tão na cara que eu era sozinha, comecei a preencher eu mesma o caderno com várias respostas e com isso inventando amigos que não existiam. Ora pessoas que eu conhecia da escola, ora outras que só existiam na minha imaginação mesmo.

Lembro que eu pretendia escrever as respostas de umas 3 pessoas só, mas acabei preenchendo todas as linhas deixando pra ela a última. Achava que assim ter mais assunto ainda além de me gabar da minha popularidade obviamente, já que ela não conhecia aquelas pessoas e eu podia contar a história que eu quisesse!

Hoje eu olho pra isso e fico pensando "caralho que bosta, hein" ao mesmo tempo fico "eita, então se for assim essa foi a primeira história que eu escrevi na vida! Legal, posso dizer que comecei a escrever aos 11 anos!", tudo depende do referencial no fim das contas.

É doideira demais você chegar na fase adulta e olhar pro passado conectando todos os pontos que te fizeram você ser quem é hoje em dia, né?

O mais engraçado era que essa postagem nem ia ser essa exatamente.

Eu ia falar sobre um assunto completamente diferente, mas quando sentei pra escrever e comecei a introduzir a ideia, essa lembrança surgiu e puff! Cá estamos.

Deixa eu voltar.

Se eu soubesse desenhar de forma a reproduzir no papel ou no digital exatamente aquilo que tô visualizando, hoje eu desenharia o entreblogs como um jardim em que cada blog é um canteiro com seu próprio ecossistema e tipo de vegetação.

Mas, mais importante que isso, é que todo esse jardim gigantesco é um terreno extremamente fértil e propício ao desenvolvimento dos seus canteiros que seguem crescendo de forma completamente independentes uns dos outros, mas conectados de alguma forma.

Esses posts colaborativos seriam então na minha analogia, as abelhas e passarinhos levando de um canteiro a outro sementes que farão surgir novas postagens e ideias.

Eu acho tudo isso maravilhoso!

Se a Mini Mika me visse hoje ela ficaria maravilhada, mas também confusa de certa forma, pois é como se fossemos todos próximos uns dos outros, mas ao mesmo tempo não, estava eu e o marido comentando disso essa semana, inclusive.

E é meio bugado, por que você acompanha as pessoas em seus blogs pessoais e por consequencia conhece um lado muito intimo das pessoas, mas ao mesmo tempo não dá pra simplesmente chegar e mandar mensagem no privado da pessoa do nada, aliás, talvez seja simples pra algumas pessoas, mas não pra gente (eu e ele) até agora.

Isso aí tem moh cara de ser (entre muitas coisas) reflexo de nosso tempo com tanta conexão através de dados criptografados, mas com uma distância territorial gigantesca e muitas vezes intransponível.

95% das pessoas com quem me relaciono hoje em dia eu nunca vi no mundo real. O que é frustrante já que inevitavelmente muito se perde pela falta do contato físico, do olho no olho, do sentir o cheiro ou a catinga da pessoa, ver a forma física ao vivo e à cores e não só uma foto estática.

Ao mesmo tempo em que, mesmo assim, essas relações são tão reais e significativas quanto podem ser à distância e às vezes mais do que as presenciais.

Outra coisa curiosa que esse BEDA tá me fazendo pensar é na minha dificuldade com o meio do processo, por que ali pelo dia 15 eu já tava "cheeeeega eu não aguento maaais!", mas agora que tá chegando ao final comigo ta rolando o movimento de voltar pra como eu estava me sentindo nos primeiros dias.

Digo isso pois já percebi que eu gosto de começar projetos, mas dificilmente consigo finaliza-los, meu problema sempre começa quando chega na metade, quando já passou a empolgação inicial e a gente tem que manter constância, é nessa hora que eu largo as coisas. Tô ligada que não acontece só comigo isso aí.

Todos os livros que pensei em escrever até hoje e de fato comecei, caíram nesse mesmo problema.

Eu já planejei mil e uma coisas, aprendi a fazer escaleta, fichas de personagens e tudo o mais.

Estudei sobre escrita criativa, crônicas, contos, histórias de fantasia, ouvia podcast sobre escrita, acompanhava escritories nas redes sociais (foi assim que eu encontrei meu marido inclusive), fiz um monte de planilhas e docs com estudos de personagens ou exercícios aleatórios pra destravar.

Tudo tentando manter uma tal de procrastinação ativa, criativa, produtiva e quantos tivas mais existir, mas sentar a bunda na cadeira e parar pra escrever de fato!?

Ah não, aí já é demais! Acho um absurdo essa ideia aí de que pra ser escritor tem que escrever 😤 /piada

Aí veio 2026 e eu começando esse blog.

Veio agosto e eu participando do BEDA.

Veio os papos no entreblogs, aquele terreninho fértil pra ideias e colaboração criativa e em meio às conversas, me lembrei de algumas coisas sobre isso de ser uma pessoa que escreve.

Teve a Luly e a Maria conversando sobre o que define uma pessoa escritora e a Luly falando praticamente o que eu penso sobre a tal da sindrome do impostor: que devia ser síndrome da impostora.

Algo que no fim nem é algo cientificamente comprovado e tal, mas acho que só não teve gente estudando o suficiente a respeito para comprovar (ao menos da última vez que eu olhei, não achei nada não), até porque muito do que se é comprovado cientificamente começa da experiência humana de toda forma.

Não que os exemplares socializados como homens na espécie humana não sofram,(antes que venham me acusar de misandria), mas a diferença é muito desproporcional, cara! Alguém me dá 5% da autoestima do homem cis hetero padrão, eu aceito.

Ser mulher é insalubre demais e se a gente acrescenta nessa conta os recortes de classe, raça, estéticos, étnicos e sei lá mais quantos tem, aí é que dá a mulesta mesmo.

Não sei nem nomear recortes relacionados a deficiência numa frase dessas.

Depois a Aline comentou sobre ter escrito esse mês mais do que em 5 anos de blog e isso me fez pensar em mais coisas ainda, (tanto que estamos aqui nesse textão), mas especialmente uma questão que eu tenho (ou tinha) de querer fazer pra sempre aquilo que eu estava dedicada a fazer no momento (vide a quantidade de hobbies que eu coloquei nessa postagem aqui) eu ficava muito frustrada (nível me sentir uma merda ambulante) de fazer um hobby por um tempo, depois largar e nunca mais voltar a fazer.

Mas caramba é um hobbyyyyyy, não uma obrigação!

Pra mim era o fim da picada e da minha boca sempre saía essa frase: "poxa, nunca mais fiz tal coisa", até que um dia Ben me deu um fêcho com muita delicadeza ou toda a delicadeza que um carioca pode ter, me dizendo que enquanto eu estiver vivendo não é "nunca mais", é só um momento e vai ter momentos em que eu vou querer fazer mais uma determinada coisa, bem como momentos pra fazer outras coisas também.

Isso reconfigurou meu cérebro todinho!

Quando li o que a Aline falou, mesmo ela não tendo comentado num sentido negativo de que antes ela não postava tanto quanto postou esse mês, eu automaticamente me vi na fala dela e concluí que eu me cobraria e me culparia feito uma condenada se fosse eu (não sei se é o caso dela, tomara que não!)

A primeira vez na minha vida que eu pensei em ter um blog foi provavelmente entre 2006 e 2008, que foi quando meu pai por um milagre conseguiu comprar um computador de presente de aniversário pra eu e meu irmão que comemorávamos respectivamente 16 e 8 anos de idade.

Uma diferença grande que gerou um bocadinho de problemas também, mas isso é outra história. Fazemos aniversários praticamente no mesmo dia e só não foi assim porque meu pai foi trabalhar no dia do meu aniversário ao invés de levar minha mãe pra maternidade 🙄, mas pera isso sou eu digredindo né, deixa eu voltar!

Lembro de fazer conta no blogger e tudo, de ficar horas pensando em como eu chamaria o blog e como ele se pareceria, mas nunca levei adiante por motivos (que hoje eu percebo ser bem comum) de além de não saber o que escrever, não me sentir apta a isso, pois, o que alguém como eu teria pra dizer, afinal?

Eu era pobre, "nunca viajei pra nenhum lugar legal", eu não usava nada de marca, eu não tinha amigos, eu tinha 16 anos e ainda era BV enquanto todos ao meu redor já transavam. O que que alguém como eu teria de bom a acrescentar ao mundo, não é mesmo?

Pensa no quanto eu gostaria de voltar no passado pra me convencer do contrário, visse!

Com esse pensamento eu não tankei nem mesmo acompanhar outros blogs, pois isso me lembrava de que eu não conseguiria ter o meu, talvez se eu tivesse acompanhado alguns naquela época eu tivesse percebido que sim, eu podia fazer meu blog e falar do que eu quisesse!

Algo que com certeza teria me ajudando imensamente na vida pois é vendo a gente no outro, se relacionando com o outro que a gente constrói a gente. Minha perspectiva sobre mim só começou a mudar na direção do que ela é hoje quando eu finalmente consegui me conectar com alguém lá pelo finalzinho do ensino médio.

Às vezes sinto que vivi tudo fora do tempo padrão e que até hoje, prestes a completar 36 anos, agora no começo de setembro eu tenho momentos de viver pela Micarla criança e pela Micarla adolescente.

Talvez seja por isso que eu fale tanto de mim mesma, porque eu sempre quis falar, eu sempre tive o que falar, mas eu nunca consegui até 2026. E não é que isso tudo aconteceu de uma hora pra outra, foram anos até eu chegar aqui entendendo finalmente quem eu sou e quem eu quero ser.

Talvez essa seja a resposta sobre a minha sensação de estar em um processo de transição do começo desse ano pra cá.

Talvez eu já tenha alinhado boa parte dessas três versões de mim e elas estejam finalmente caminhando juntas ou quase isso.

Como se eu finalmente tivesse alcançado a página atual do lançamento da história da minha vida e estou pronta pra construir o que vier por conta própria e presente no aqui e agora, sem me preocupar ou sofrer tanto com as partes que perdi no passado por tantos motivos diferentes.

Acho que se eu realmente tivesse criado o blog da primeira vez que pensei até teria sido bom, mas eu sei que me culparia e me julgaria horrores por não manter uma quantidade padrão de postagens.

Quando comecei esse aqui prometi a mim mesma que estaria atenta a qualquer autocobrança exagerada que pudesse surgir, porque eu percebo hoje que fiz isso acontecer com a escrita e com ouvir música.

Que tá acontecendo com os livros de um tempo pra cá e o ritmo de leitura caindo, aconteceu com o bullet journal que larguei de vez ano passado, com as colagens que não fiz nos últimos meses, pois agora está sendo o momento do blog e tudo bem!

Essa inconstância não me perturba mais (assim espero), porque talvez agora eu entenda melhor os motivos de eu funcionar dessa maneira.

Há muitos anos eu sei que é bem mais fácil aceitar o próprio funcionamento do que construir um novo do zero distante demais do seu eu autêntico.

Acho que minha primeira libertação nesse sentido foi aceitar que eu sou introvertida e pronto, eu não tinha que aprender a ser extrovertida para existir.

Que eu sou uma pessoa com deficiência física, tenho um lado menor que o outro e pronto, eu não preciso ser simétrica para ser uma pessoa digna de amizades.

Que eu sou uma pessoa gorda e é isso aí, não preciso emagrecer pra ser amada por alguém.

Que eu não sou uma mulher-rica-branca-padrão de blazer, na caricatura perfeita da psicóloga que a sociedade espera que eu seja, eu posso ser do jeito que eu sou com meu cabelo cacheado e se a pessoa que estiver diante de mim não gostar disso, isso não diz nada sobre mim e sim sobre ela.

(Obrigada Tereza, por um dia ter me dito isso enquanto esperávamos o busão pra voltar pra casa depois da aula, eu nunca esqueci, você também reconfigurou meu cérebro naquele momento.)

E não quero dizer isso só sobre mim!

Alguém pode ser autista e professora se ela quiser.

Alguém pode ser arromantico e se relacionar com alguém se ele quiser, descobrir que se apaixonou e ainda assim ser arromantico do mesmo jeito.

Alguém pode ter tatuagens pelo corpo todo, usar dreads e ser um excelente profissional, por que nada disso diz respeito a sua capacidade de fazer isso ou aquilo.

Alguém pode ter mais de 50 anos e finalmente sair do armário pra família inteira.

Alguém pode ser sua amiga desde a infância e essa amizade chegar ao fim, se não faz mais sentido pra quem vocês são no presente.

Alguém pode sair com uma toalha de banho no ombro e andar pelo centro da cidade. Se quiser pode até colocar uma melancia no pescoço e é isso aí, desde que faça sentido pra você dentro da sua história e não esteja prejudicando ninguém nem sua saúde, foda-se.

Nada é imutável no fim das contas, se uma manhã acaba, a noite acaba também.

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