Como a gente sabe o que precisa ser melhorado?
Como eu posso saber o que preciso melhorar em mim mesmo?
Vamos imaginar um personagem hipotético que apesar de hipotético existe e concordou com este texto/resposta.
João é um cara de quase trinta anos e costuma ser descrito pelas pessoas como sendo um cara legal, bom ouvinte e conselheiro, inteligente e safo sobre muitas coisas, mas ao mesmo tempo, para João persiste uma grande certeza de que é impossível existir alguém que não tem defeitos. João me diz que sempre pede aos amigos (e eu já vi, ele pede mesmo!) que o falem se ele fizer qualquer coisa que os incomode, mas ele sabe que não pode controlar que as pessoas te deem tal feedback ou sequer que elas saibam fazê-lo. Com isso João se sente angustiado com o fato de não saber quais são seus defeitos e o que ele poderia fazer para melhorar a si mesmo, não por se achar o alecrim dourado do mundo, mas justamente por estar sempre muito preocupado sobre como ele pode melhorar (é o que ele me dá a entender quando conversamos).
Assim chegou para mim essa questão. Não era em contexto de terapia e sim uma conversa entre amigos, mas não posso negar que como psicóloga essa dúvida fez disparar umas três luzinhas de alertas ao mesmo tempo, nada muito grave, apenas pensamentos que surgem quando me deparo com algo aparentemente em excesso. Eu até respondi João na hora, mas combinamos de pensar mais a respeito futuramente e assim esse texto nasceu.
É comum eu ver dúvidas semelhantes na clínica, especialmente quando é a primeira vez que a pessoa diante de mim está fazendo terapia e a isso eu geralmente respondo uma variação de algumas dessas perguntas:
"Qual foi a gota d'água que fez você chegar até aqui hoje e não ano passado por exemplo?"; a minha preferida.
"Fala o que vier à cabeça" ou perguntas relacionadas a algumas área específica que a pessoa tenha comentado previamente e me chamou atenção.
"O que mais te incomoda na forma como você vive a sua vida hoje?". Essa sempre rende bastante coisas!
Porém, eu sinto que nenhuma dessas perguntas se encaixaria muito bem na situação de João. Primeiro que João já tem anos de terapia, segundo que a psicóloga dele não sou eu mas ainda assim me vi matutando como eu responderia a tal questão se eu fosse.
Eu sou do time que acredita que para achar uma resposta devemos na verdade esgotar as perguntas e para João ao invés de respostas só penso em mais e mais perguntas.
Talvez uma boa maneira de encontrar a resposta que a gente procura seja parar de procurar por ela especificamente e passar a olhar ao redor dela.
Tipo:
O que te faz acordar e levantar da cama para encarar mais um dia? Qual a coisa que você mais gosta de fazer, mas não tem feito por qualquer motivo que seja? Onde você sonha em chegar um dia? O que ou quem você almeja ser na vida? Do que você gosta e o que você não suporta? Como tudo isso se relaciona com a pessoa que você é hoje?
E normalmente é assim mesmo, uma pergunta leva a outra, que leva a outra, que leva a outra e quando pensa que não, estamos diante de um emaranhado de informações que a princípio até podem parecer sem sentido ou relação, mas confia, algum sentido tem, às vezes a gente só demora para descobrir.
Nesse processo, naturalmente esbarramos em algo que precisa ser melhor investigado como se pegássemos uma lupa e e direcionássemos para aquela ponto específico a fim de ler as letras miúdas que estão por toda parte preenchendo os espaços negativos da nossa vida.
Por espaço negativo aqui, falo do conceito artístico presente no desenho, na fotografia ou no desing, por exemplo, que é toda a parte não preenchida da tela/imagem/foto, como um respiro, uma ausência de algo que forma e destaca mais ainda o objeto principal.
Eu gosto muito desse conceito e sempre lembro disso quando penso na imensa quantidade de experiências que compõem a vida de um ser humano.
Eu sei que é nesse ponto que mora muitas das dores não identificadas das pessoas que chegam até mim. Cada abordagem tem seu jeito de chegar aí e para mim é inegável que muito disso se deve à forma como nossa sociedade está estruturada e que certamente o problema é na base dessa estrutura, consequentemente a solução (por mais que eu esteja atendendo pessoas individualmente), precisa ser pensada de forma coletiva.
Ao meu ver, é aí que mora meu papel principal hoje em dia: contribuir para que pessoas individuais possam se entender como parte de um coletivo e logo, também como parte da solução.
Já nem sei se todo esse texto é em resposta (apenas) ao questionamento de João, mas foi por esse caminho que minha mente seguiu ao pensar no que ele me perguntou, uma mistura do outro e de mim mesma.
𔓘 E se quiser trocar uma ideia sobre isso, é só clicar aqui :)
「 Beba água 」