݁ .⋆᪥₊ ݁ . Doses de Mikah à gosto . ݁₊᪥⋆. ݁

Cuidar de mim também é cuidar de você

Cuidado, esse texto certamente vai pesar o clima, leia com cautela.

Recentemente me vi em uma situação difícil. Algo que sempre foi, de certa forma, um medo, o meu maior pesadelo dentro da área da psicologia: como vai ser quando eu me deparar com uma situação que está muito além do que eu sou capaz de intervir? A questão não é nem "se", mas "quando" mesmo, pois desde antes mesmo de me tornar psicóloga eu já sabia que esse momento iria chegar.

E chegou.

O maior desafio, no fim das contas, não foi nem saber ou deixar de saber o que fazer e sim lidar com os meus próprios sentimentos em relação ao ocorrido. É nisso que eu quero focar aqui: como a gente lida com algo tão difícil sem sucumbir?

Eu sei que pode parecer vago sem saber o contexto, e por questões de sigilo, é claro, tudo que eu disser aqui foi cuidadosamente modificado, é só o mínimo mesmo para que quem ler saiba do que eu estou falando.

O estado é negligente com muitas pessoas, isso é fato. O serviço público por vezes não dá conta da quantidade de demanda que chega para ele. Na periferia, tão distante dos grandes centros, as pessoas se viram com o que tem e como podem, eu sou parte delas, mas do lugar em que eu estou hoje até o fim dessa cadeia, tem muito chão e muita vulnerabilidade em todos os sentidos.

Me deparar com alguém numa situação desesperadora em que viver é sinônimo de sofrimento constante por motivos que nem são diretamente relacionados a você, mas que se relacionam diretamente com você como falta de acesso a serviços básicos de saúde, segurança e bem estar é, para alguém como eu, pedir para sentir toda essa vida junto da pessoa em questão.

Eu sei muito bem, obrigada, o que fazer, para onde direcionar e a quem cobrar, mas ao mesmo tempo, manejar a minha própria dor e revolta ao acompanhar esta pessoa, faz parecer que eu estou diante da décima terceira tarefa de Hércules, o inimigo agora é outro e ele é muito maior que qualquer outra das suas tarefas anteriores.

Sozinha não tenho como mudar o sistema. Sozinha não tenho como proteger ninguém de se deparar com profissionais que deixam de fazer o que juraram fazer ao se formar naquela área. Sozinha eu só posso cuidar de mim mesma e foi essa lição que eu aprendi por aqui ontem.

Depois de duas semanas intensas lidando com a situação de perto e de longe ao mesmo tempo, ciente dos riscos, das responsabilidades, do que me cabe e do que foge à minha ossada, quebrei toda ao ler: "se algo me acontecer o pouco que eu tenho ou que vier a conseguir, tem que ir para essa pessoa aqui". Dada a situação, eu até entenderia de verdade se uma decisão tão extrema fosse tomada, mas obviamente eu não quero que isso aconteça.

Não é como se eu fosse me culpar, não é como se eu fosse achar que poderia ter feito mais. Tanto racionalmente, quanto emocionalmente eu sei que tenho feito o que posso e até um pouco do que não deveria estar fazendo enquanto psicóloga, até porque sei que esse limite já foi ultrapassado há muito tempo, mas putaquepariu como dói saber que tudo poderia ser diferente se vivêssemos um tipo de vida diferente enquanto sociedade.

Como é revoltante saber que uma andorinha só não faz verão. Como é cansativo perceber eu que nem mesmo tenho forças para aderir a coletivos que estão por aí à fora lutando pelo que falta nessa situação: direitos, dignidade, condições mínimas de vida. Como é assustador saber que lá fora existe coisa muito pior, vide o tipo de vida que todo um povo tem que levar enquanto sobreviventes de um genocídio.

Como é, de certa forma, até mesmo decepcionante saber que o que está ao meu alcance é "apenas" cuidar de mim mesma para que eu não caia nem tão cedo e possa continuar fazendo o que sempre quis mesmo. Que o que me cabe é apenas um desabafo aqui, uma arte ali, lágrimas durante muitos momentos e segurar o choro durante as horas em que tenho que me mostrar inteira para a pessoa em questão e para outras.

Eu sei que não tô só, eu sei que estou tanto eu como todas as pessoas que me cercam fazendo o que dá para cada um fazer. Eu sei que a situação está caminhando para uma resolução e sei também que eu sinto muito e é difícil de lidar com tanta dor de uma vez. Ainda assim, eu não escolheria outra coisa para fazer da vida e nada disso é uma reclamação, é só um dos jeitos de lidar com quando a gente sente demais.

quinta-feira, 16 de julho de 2026 11:33



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#desabafo #psicologia