Esporádico de Escrita #2
Hoje pude ver um exemplo de escaleta em uma história que Ben está escrevendo junto com uma amiga dele (um grandíssimo vem aí deles) é isso finalmente me ajudou a entender de fato como funciona essa de escrever uma escaleta por capítulo. Fazia tempo que eu tava pra ver isso aí.
Entendi que é basicamente você reservar um tempo para digitar sobre a história, pensar o que vai acontecer naquele capítulo demarcar as movimentações de cena e os marcos principais que devem ser abordados, até onde ele vai, essas coisas. Tudo só contando sem precisar inserir mil e um detalhes que geralmente a gente encontra recheando um capítulo.
Eu já tinha feito algo do tipo sem saber enquanto escrevia ODQR (abreviação do título se outra história que tentei escrever e não terminei), mas eu sempre tive mais problema com o recheio do que com a estrutura, então não sei ainda se esse método vai ser totalmente efetivo pra mim a ponto de eu usar só ele, mas isso me fez pensar uma seérie de outras coisas (por isso estamos aqui).
𖡼.𖤣𖥧𖡼.𖤣𖥧 𖡼.𖤣𖥧𖡼.𖤣𖥧
Um dos pensamentos que mais me perturbavam enquanto escrevia ODQR e outras histórias que tentei escrever ao longo dos anos era um desejo de parir uma história pronta por mais absurdo que isso seja. Num primeiro plano você pode pensar "nossa mas isso é óbvio toda boa ideia já foi um rascunho meio bosta etc, etc ..." E eu concordo parece óbvio mesmo, mas o ser humano é contraditório e sempre existe uma distância entre a racionalização e o sentir . Hoje noto que pra entender o que exatamente você sente você tem que dissecar o sentimento e os pensamentos ao máximo.
No meu caso poderíamos chamar de perfeccionismo, mas perfeccionismo é um nome muito genérico e dizer que sou perfeccionista não é suficiente para entender como eu vivencio o perfeccionismo. Eu entendi isso com o início dos meus estudos em Patopsicologia (e não, não é a psicologia dos patos como você talvez tenha pensado - todo mundo faz essa piadinha, tá tudo bem).
Na faculdade de psicologia estudamos Psicopatologia que é o estudo científico dos transtornos mentais, comportamentais e emocionais, focando em suas causas, sintomas, evolução e tratamentos e tal só que isso de uma forma beeeem descritiva, focando muito mais em diagnosticar e medicar para curar e isso até que não seria um problema se não fosse a desgraça do capetaliso que é a principal causa de uma penca de sofrimento por aí, mas faz você acreditar que a culpa é só sua e aí tira a responsabilidade dele de lado e você que lute, eu não vou nem entrar em muitos detalhes aqui se não isso vira um textão que nem vai mais ser sobre escrita...
Sigamos...
Na abordagem que eu sigo enquanto Psicóloga, a Histórico Cultural, estudamos a Patopsicologia eu não vou saber explicar tudo tão bem assim já que eu apenas só comecei meus estudos desse tópico especificamente, mas de forma muito simplificada e correndo o risco de não definir tããão bem assim: podemos entender que é um campo de estudos intermediário entre a psicologia e a psiquiatria responsável por analisar como os processos de adoecimento psíquico ocorrem e quais são os impactos destes no desenvolvimento da personalidade (isso é o que diz o texto), na prática clínica posso dizer em minhas palavras que é: antes de olhar a doença, olhar a pessoa, sua história, a história daquele sofrimento e como a pessoa se vira ou se virou até agora para continuar a vida apesar de tudo.
Então é tipo: perfeccionismo é o sofrimento e algo que acomete diversas pessoas pelo mundo afora, porém como cada pessoa lida com isso vai depender da sua história e diversos outros determinantes sociais ou seja, (no minimo) tem que ver na sua vida e em como ela está configurada de que maneira isso te atinge e estrutura sua forma de ser e agir hoje, entede?
Mas é claro, não basta entender objetivamente tem que ter a parte subjetiva também, emocional, relacional, afetiva, social, etc etc. Uma mulher perfeccionista é totalmente diferente de um homem perfeccionista certo? No lugar de mulher / homem insira quaisquer outros deteminantes sociais, geográficos e o que mais você quiser, agora junte isso tudo em uma vida dentro do capetaliso e parabéns você tem um ser humano todo fudido, digo, contraditório, que na maioria das vezes não faz nem ideia de porquê age como age ou sente como sente.
Ok acho que de todo jeito isso já deixou de ser sobre escrita, né? Deixa eu tentar voltar pra coisa toda do perfeccionismo e escrita.
𖡼.𖤣𖥧𖡼.𖤣𖥧 𖡼.𖤣𖥧𖡼.𖤣𖥧
Quando eu comecei minha jornada no mundo da terapia (com uma psicóloga que também é da mesma abordagem que eu) + o fato de eu atender com base nessa abordagem e estudar um monte de coisas e casos com base nela, eu fui entendendo racionalmente de onde isso vinha e por que existia e para você ter uma ideia da dimensão do problema isso foi o que falei hoje a Ben depois de escrever: "estou feliz e me sinto viva!" esse é o efeito da escrita para mim, porque? Eu ainda não sei, mas sinceramente eu nem tento entender mais só aceito que isso faz parte de mim.
Agora imagina você tentar escrever não conseguir e isso te fazer sentir o oposto de feliz e viva! Era como eu me sentia sempre que travava. É um porre! Eu culpei mil e uma coisas diferentes ao longo do tempo, inclusive a mim mesma, aceitei por um bom tempo que só não era para mim, que eu seria só leitora mesmo e pronto e por um tempo eu me convenci tanto disso que eu não conseguia mais nem ter ideias criativas, tempos sombrios. E se eu insistisse eu sentia vontade de chorar desconsoladamente, mas nunca me permitia nem isso, afinal sou adulta ué, por que raios estaria chorando feito uma criancinha que perdeu seu objeto de conforto preferido? pfff! /ironia
As coisas crueis que dizemos a nós mesmos... tsc tsc tsc...
Esse assunto por si só abre tantas abas na minha cabeça que chega a ser cansativo processar tudo isso de uma vez e ainda tentar escrever, o que eu consegui fazer hoje (e tenho feito ultimamente) é escrever como me sinto sobre escrever que nem comentei na postagem de ontem, foi só depois de um bom tempo escrevendo sobre como me sinto escrevendo que eu comecei a entender de onde vinha aquele entalo na garganta. Perfeccionismo, comparações injustas, memórias traumáticas ao longo da vida, invalidação emocional etc...
Tudo isso tem sido importante para eu tirar da minha cabeça e olhar aquilo bem de pertinho depois de colocar no papel e aí sim começar a mexer e experimentar possibilidades de fazer o que eu amo sem esbarrar em dores não tratadas nem ativar mil pensamentos horríveis num campo minado.
Nada disso significa porém que o trabalho está concluído, tenho certeza que ao longo da escrita dessa história vou cavar mais ainda esse poço e achar mais coisas ou restos das mesmas coisas que já achei só que de outros jeitos.
E é por isso que fazemos terapia, crianças. Não é fácil, mas também não é impossível.
𝐓ⱺ𝖼α𐓣ᑯⱺ α𝗊υ𝗂 🧠
(Maki Otsuki- Memories)
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「 Beba água 」
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