Eu, a cozinha e um trauma geracional
BEDA2026 Texto 4/31 Um oferecimento das minhas páginas matinais (escrevi isso no caderno em 23/07/2026) e acho que ele é um dos meus favoritos dentre todos que já escrevi até agora :)
Um fato sobre eu e minha família: fui moldada sob insegurança financeira, um trauma geracional na cozinha e cheguei na fase adulta com -10 em habilidades culinárias, mas hoje adoro cozinhar uma coisinha diferente ao contrário da minha mãe que só falta se explodir de ansiedade se tem que fazer qualquer mínima coisa diferente do padrão ao qual ela já se acostumou.
E essa é a história do POST de hoje e o tema de terça-feira durante esse mês de Agosto por aqui.
Segue a receita do insucesso:
Adicione uns 100kg de insegurança financeira, mas precisa ser adquirida um pouco por cada lado da família tendo a sua devida forma de se expressar, que é pra ninguém notar o excesso disso nem tão cedo.
Por parte de pai isso se traduziu na ideia de que só teremos o básico para viver. Lanches? Passeios? Lazer? Não combinavam com minha família.
Fui num circo furreca qualquer em algum momento da pre-adolescência, e obviamente, nessa época já tinha sido desabilitada em mim a habilidade de gostar disso, afinal eu já estava grandinha demais pra me interessar por coisas assim, né?
Contém ironia e uma pitada de como muitos de nós pensamos na adolescência (alguns até na vida adulta).
Cinema? A primeira vez que fui foi quando saiu o primeiro filme dos vingadores, do qual eu nunca me interessei e em um parte de diversões, talvez, quem sabe, aconteça esse ano!
Não sei o que esperar, tô até com medo de me decepcionar com isso também.
Às vezes parece que existe uma janela de tempo muito específica para se criar vínculo afetivo com algumas coisas e esse tempo é na infância, se passar disso vira tipo o problema de Monty Hall.
Sinceramente eu acho esse pensamento muito triste e espero ser capaz de aproveitar um parque (e outras coisas que nunca fiz antes) também enquanto adulta, ressignificar esse sentimento igual fiz com o ato de cozinhar ou de simplesmente estar na cozinha.
Mas, voltando à nossa receita.
Acrescenta-se aí uns 20kg de ansiedade + 20kg de gritos, uns 10kg de reclamações aleatórias sobre qualquer outra coisa acontecendo no momento, outros 10kg ou mais de questões de gênero, pois obviamente não pode faltar a sobrecarga feminina, é justamente isso que dá o móio a essa aversão versus obrigatoriedade de estar na cozinha que aprendi com a minha mãe.
Para inteirar os 100kg no lado materno da receita, ela acrescentou um ingrediente secreto que, aparentemente, não passou para mim, ou até passou, mas se perdeu no meio do caminho.
Como não sei o que é só tenho algumas pistas. Desconfio que tenha haver com a rabugice e ciúmes por parte da minha avó para com a minha mãe.
Já ouvi coisas que me fazem pensar na seguinte cena:
Mainha até gostava de cozinhar e o seu pai (que eu não conheci) gostava da comida dela. Isso talvez explicasse o fato de ela realmente fazer uma comidinha gostosa, mas o pai dela faleceu quando ela tinha uns 13 pra 14 anos e aí não deu tempo para desenvolver muito mais além do básico.
Sendo só minha avó (que pelo que entendi morria de ciúmes do marido a ponto de implicar com a relação dele com os próprios filhos), pesou muito a coisa toda de gênero, já que a irmã mais velha de mainha, saiu cedo de casa para, o que dizem as más línguas, “raparigar”.
Tia inclusive que ainda assim continuou sendo a preferida da minha avó até o último dia de sua vida, também a única que dizia abertamente não gostar do pai porque ela era “muito pra frente” e o pai barrava isso nela (não julgo ela não!).
Essa avó existe em lembranças muito contraditórias na minha cabeça, viemos com ela nos últimos 13 anos de sua vida, pois por questões de saúde, ficou a cargo da minha mãe cuidar dela (faz 3 anos que ela se foi e até hoje minha mãe vive um luto complicado).
De um lado, lembro da avó da minha infância, aquela bem clássica: uma estética real de casa de vó, comida gostosa, carinho e atenção que eu não sentia receber de outros familiares, mas principalmente a possibilidade de existir com autonomia, o que fora dali era o tempo todo podada.
Ou seja: andar pelo sítio em que ela morava sem ninguém ficar controlando meus passos ou com medo de eu cair e quebrar a perna.
Passei só alguns dias de férias só eu e ela, mas são essas umas das poucas sensações/lembranças felizes da minha infância podendo ser criança de verdade e “bulir” (bagunçar) as coisas por aí sem gritos no meu pé do ouvido.
(Era só uma criança quieta demais podendo fazer coisas de criança pela primeira vez e explorar o ambiente, que droga!) Enfim… esse assunto me faz ficar um cadim revoltada, deixa eu voltar para um terreno mais seguro… (risos de nervoso).
Por outro lado, lembro da avó BBB (brava, brigona e birrenta) que foi morar com a gente anos depois. Segundo mainha, essa era a realidade da Dona Alcina, alguém que sempre teve cara de poucos amigos.
Passei um tempo considerável de luto pela avó da minha infância e detestando a avó real, embora comigo ela agisse feito uma seda. Eu fui uma das primeiras netas dela, nasci muito fraquinha e ela ajudou minha mãe nos meus primeiros 2 anos de vida.
Tenho uma prima que nasceu exatamente no mesmo dia que eu, só mudando o turno e a avó que ela lembra não era tão boazinha assim com ela, acho que eu e essa prima fomos uma repetição da dinâmica entre vó, mainha e tia.
Ela tinha seus preferidos pelo visto, não é mesxmo?
Ao escrever isso percebo que aparentemente esse favoritismo pode vir de uma identificação maior com minha tia e eu, pois temos em comum (eu e tia) esse ar de inconformidade com as regras sociais enfiadas goela abaixo nas mulheres, cada uma do seu jeito, e também já pesquei em conversas aqui e acolá, que vó era considerada uma mulher rebelde na sua juventude, só por não aceitar desaforo de ninguém especialmente de macho nenhum. y.y
Queria muito ter alcançado essa compreensão com ela em vida pra perguntar a ela como foi:/.
Dona Alcina não foi uma pessoinha muito fácil de lidar se você não caísse nas graças dela, pelo que podemos notar.
Com tudo isso, quando chegou minha vez de existir e receber os ensinamentos pertinentes ao meu gênero, contraditoriamente, os da cozinha não foram completamente repassados para mim pois mainha não trouxe com ela essa dinâmica toda de ciúmes, embora ela tenha sim um quê bem sutil de favoritismo comigo em relação ao meu irmão, mas ela vai morrer jurando que não, é claro!
Hoje eu entendo que a minha mãe sofre uma ansiedade fudida de cozinhar, mas tolera o básico por causa do meu pai e da ideia que ela aprendeu de que esse é o seu papel mesmo enquanto dona de casa.
Se você SONHAR em pedir pra ela fazer algo minimamente fora do básico, ela vai tentar, pois tem muita dificuldade de dizer não e desagradar o outro (outro padrão de gênero aí ó).
Ela vai tentar mas também vai travar, gritar, jogar longe o que tiver na mão na hora da explosão de raiva e ansiedade.
O negócio é tão sério, que nunca me esqueço que em determinado natal eu quase tomei banho de molho para lasanha, por que ela tentou bater aquilo (quente) no liquidificador e por algum motivo espirrou pra todo lado sujando tudo.
Ela jogou o copo do liquidificador pela janela da porta que dá para o quintal e eu estava bem na mira dela.
Minha sorte é que nessa época eu ainda tinha 1 perna 100% funcional e dava conta de dar uma leve carteirinha (ainda não tinha quebrado o tornozelo esquerdo), se fosse hoje, era queimadura na certa e bem na cara pra piorar!
Com esses belíssimos exemplos, acho que já dá pra você entender né como se deu a minha formação culinária?
Eu não podia chegar perto da cozinha por tantos motivos, que quando eu saí de casa eu até sabia fazer arroz refogado, fritar e cozinhar ovos ou fazer macarrão, pois consegui aprender essas coisas depois de ter 1 unidade de amigo de quem eu podia frequentar a casa, já que ela conhecia a família dele de anos atrás quando lavou roupa pra fora e eles foram um dos clientes dela.
Lá eu treinei uma coisa ou outra quando passava o fim de semana com ele, fosse com ajuda dele, da internet ou da minha memória ao observar de longe como ela e esse amigo faziam as coisas.
Capaz de esse ser +1 motivo de eu detestar lavar louça, pois como ela cozinhava tudo, logicamente a louça tinha que ser minha e como eu sempre fui a mais baixinha da casa e a pia era muito alta pra mim, escorria água pelos meus braços e molhava tudo.
Motivo de mais gritos e reclamações (ou de quebrarem uma lixeirinha de pia na minha cabeça) :) saudável, né nom?
Corta pra 2023, Ben vindo morar comigo e eu ficando MA-RA-VI-LHA-DA que esse homi sabia até fazer pão, esfiha, bolos, biscoitos e sei lá, qualquer coisa que ele quisesse tentar!
Cara! O que é isso? Ganhei na loteria!?
A primeira vez que eu acordei com os tep-tep dele espancando uma massa de pão eu fiquei até assustada, já que eu não fazia nem ideia do que era aquele barulho (ter perda auditiva me deixa sensível a barulhos “novos”), mas quando vi aquela massa virar um pão caseiro fofinho e gostoso eu me senti igual o cara do meme “tecnolóógia!”
Saí da casa dos meus pais em 2013, mas voltei a morar com eles entre 2020 e 2023, de lá pra cá muita coisa mudou na minha vida e na minha relação com a cozinha.
Descobri que eu gosto de fazer isso, de estar lá e preparar refeições gostosas pra todo mundo. E quase briguei feio com meu pai várias vezes, pois isso ia contra seu hábito de só ter o básico. Mas poha, eu que tava pagando os ingredientes, eu hein u.u!
Nesses três anos que morei de novo com ela, me esforcei para mostrar que era possível ter uma relação legal com essa parte da casa e da sua/nossa existência enquanto mulheres de quem esperam tal habilidade.
Hoje tanto eu quanto ela já conseguimos ter momentos juntas na cozinha sem sofrer de crises de raiva e ansiedades severas por parte dela! Assim, sem pressão fomos explorando esse universo a partir dos nossos interesses, ora os meus, ora os dela, mas principalmente os dela.
Até hoje eu comemoro quando ela me manda foto ou vídeo no wpp de algo que ela viu na internet, achou legal e resolver tentar fazer em casa!
Nisso o canal/perfil do Almanaque SOS tem ajudado muito também, ela sempre gosta de tentar as coisas que vê lá, a mais recente que compartilhamos uma com a outra :)
O mais recente foi um vídeo deles testando uma receita que resultava em um tipo de açúcar de maçã, (e que por algum motivo tiraram do ar!) então agora nem sei mais se vamos fazer, mas com certeza a próxima tentativa vai sair de lá.
😉 E se quiser trocar uma ideia sobre isso, é só clicar aqui :)

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