Infinitos Rascunhos
Eu lembro do meu marido comentar esse texto no início de Maio e de a gente conversar um pouco a respeito do que normalmente nos impede de compartilhar o que escrevemos de fato com o mundo. Só mais de um mês depois eu parei pra ver o texto do Felipe ao dar uma lida no que tinha lá pelo Discovery aqui do Bear Blog e voltei a lembrar daquela conversa.
Como alguém que já passou anos sem compartilhar nadica de nada que se passava na minha cabeça, senti uma imensa vontade de responder e cá estamos.
Vou pegar como exemplo essa postagem mesmo, eu sequer conheço o cara, foi literalmente o primeiro texto dele que eu li, embora meu marido leia bastante os textos dele e comente uma coisa ou outra comigo, que motivo exatamente eu teria para responder o cara assim do nada?
Será que ele vai me achar metida a besta? Será que vou soar pedante ao me intrometer onde não fui chamada? O cara já está em terapia, será que ao ver que eu sou psi também ele vai achar ruim ou a psicóloga dele vai achar ruim outra psicóloga aleatória respondendo o Felipe e ai ela poderia pensar "qual é vadia, ta querendo roubar meu paciente!?". Isso se ele considerar minha resposta relevante o suficiente para comentar com ela, pff até parece, ok vou desistir de responder o Felipe e torcer para a tal serendipidade acontecer com ele e ele topar com aquele post dahora que eu achei sobre isso um dia desses, se bem que o Robert que escreveu e o blog dele é famosinho, é capaz de ele já conhecer ele e já ter lido justamente aquele texto né? Capaz até que ele fez essa postagem meio que comentando como ele mesmo se sente sobre isso depois de ler o texto do Robert...
Agora vamos analisar friamente os pensamentos acima pois, admito, eu realmente pensei todas essas coisas quando comecei a digitar essa postagem.
Mas será que isso importa? Importa tanto assim pra mim o que ele ou a psicóloga dele pensariam de mim respondendo seu texto? Por que motivo eu estou assumindo que eles achariam essas coisas e não exatamente ao contrário, já que ok, existe 50% de chance de eles não gostarem, mas também existe 50% de chance de gostarem!?
Será que isso no fundo é o que meu lado mais critico e ranzinza pensa de mim? (Spoiler: sim).
Eu sempre comento que para esse tipo de pergunta existem duas respostas:
- A resposta geral com base em estudos cientificos reais que analisa uma amostragem específica de uma população específica e conclui o que normalmente leva a tal situação
- A resposta que só eu posso dar pois parte da minha vida e da minha história.
Por isso a gente pode estudar mundos e fundos, a gente ainda vai viver e sentir como qualquer pessoa que não estudou a respeito daquilo. Qual é a resposta que só você pode dar a esta questão? O que quer que você responda, podemos levar em consideração a resposta geral alcançada após estudos e pesquisas, mas a peça que falta vai estar dentro do que você viveu.
Em resumo, a resposta que só eu posso dar à mesma questão que aflige o Felipe é que:
Cresci sob altas expectativas dos meus pais e aprendi por isso a eu mesma ter altíssimas expectativas sobre meu próprio desempenho. Fui a filha que não deu trabalho, a aluna que tirava notas boas e que todo mundo achava que eu "seria alguém na vida" nos moldes do capitalismo, concursada ganhando bastante dinheiro com uma vida de conforto e coisas que só uma realidade assim pode comprar.
Essa não é a minha vida, eu não sou uma gênia, não suporto estudar pra concurso embora quisesse, trabalho em dois empregos para sustentar a vida que tenho com minha família pois a clínica ainda não se sustenta sozinha e obviamente, não estou nem perto de ser rica, no máximo, no maáááximo chego perto do que tem sido chamado pobre Premium.
Percebe que nada disso tem uma relação obviamente direta que diz respeito a compartilhar meus próprios pensamentos? Depois de muito tempo em terapia foi que eu cheguei à essa conclusão aí, quando a gente procrastina ou apenas deixa de fazer algo, por trás sempre tem muitos sentimentos e pensamentos emaranhados, no meu caso a base da minha procrastinação e dificuldades de compartilhar com o mundo meu pensamento era o fato de que eu estava longe demais das expectativas que criaram e eu criei para mim e se eu mostrasse meus pensamentos logo saberiam que eu não "sou tão inteligente assim", nessa lógica eu poderia dizer que sou uma fraude (a isso também chamam de síndrome do impostor), que eu não tive capacidade de alcançar o que se esperava de mim, logo era melhor eu não ser vista pois quem não é visto, não é lembrado, certo?
Agora é a parte que entra a realidade. Acompanha comigo.
Se:
- Eu estudei sobre isso
- Eu vivenciei isso
- Eu sei e gosto de escrever sobre as minhas experiências pessoais e compartilhar com as pessoas.
Logo:
- Eu tenho base para responder o Felipe
- Isso está dentro do que eu sei
- Eu consigo me expressar de uma forma minimamente interessante e estou motivada a compartilhar isso aqui
Então:
- Porque não responder o Felipe?
- Porque ter medo do que Felipe ou outra pessoa vai achar?
- Se não valer para o Felipe, tem uma caralhada de gente no mundo, para alguém há de servir.
Resultado: você está lendo isso agora.
Isso é só um exercício reflexivo. É só mais uma possibilidade dentre diversas outras que existem, mas acho que ainda assim pode contribuir em algo.
Insira nele a resposta que só você pode dar e duvide do seu crítico interno. Se o que você escreveu ainda não está bom para você, compartilhe-o assim mesmo, para alguém estará bom, eu tenho certeza. Se for verdade que ainda não está bom, você parece o tipo de pessoa que vai buscar a melhoria, ter compartilhado o texto no seu momento atual seria então um registro da sua passagem pelo mundo que por menor que seja é a sua passagem pelo mundo, se te apetece compartilhar com alguém, compartilha.
A gente vai estar sempre mudando de toda forma, mesmo o texto que já chegou no seu melhor de hoje, poderá ser superado por você mesmo no futuro e tudo bem já que o destino só segue para frente.
Eu levei alguns anos para chegar a essa conclusão, eu precisei vivenciar muita coisa para ser capaz de estar compartilhando isso agora, mas isso também só foi possível por no passado eu ter lido outras pessoas que estavam "à minha frente" em idade ou em experiência de vida e compartilharam o seu percurso e isso chegou até mim. Não foi o texto desse alguém do passado que resolveu todos os problemas, mas foi uma das coisas que me fez parar e pensar "ei, tem outras pessoas que já passaram por aqui e elas deixaram as suas pegadas".
E é isso para mim, o que eu escrevo deixo como pegadas do caminho que eu segui, ta nascendo gente o tempo todo desde o momento em que eu nasci, então sempre vai ter alguém à frente ou atrás em relação ao meu momento atual.
E ai? Isso tudo fez sentido? Tenho certeza que cada pessoa leitora desse texto tem capacidade de contribuir com a resposta que só essa pessoa pode dar. Espero que você consiga superar o que quer que seja isso que te impede de compartilhar seus pensamentos com o mundo.
Citando o Robert mais uma vez:
Nós nos construímos cada vez que escrevemos uma postagem no blog e clicamos em "Publicar" para compartilhá-la com o resto do mundo. Creating Yourself.
Um abraço.
PS: Se você curtiu aquela forma de pensar "se, então, logo..." pesquisa por silogismo e já que estamos aqui, pesquisa também por questionamento socrático, foram dois tópicos que me ajudaram bastante a alcançar esse lugar :)
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