݁ .⋆᪥₊ ݁ . Doses de Mikah à gosto . ݁₊᪥⋆. ݁

Seria o relacionamento saudável um mito?

Já parou para pensar que às vezes um relacionamento saudável, bem como pintam, parece uma coisa de outro mundo?

A maioria das pessoas que atendo na clínica são mulheres e muitos dos casos possuem questões sobre relacionamentos. A maioria está comigo há 1 ano ou mais e várias vezes esse pensamento chegou para mim, seja em forma de pergunta, de afirmação ou uma dúvida que fica martelando na nossa cabeça como uma coceira chata num ponto das costas que nossas unhas não alcançam.

Quando se vive uma relação tóxica ou até mesmo que não chega a ser tóxica, mas que se encontra adoecida por questões de um que se tornam dos dois, pensar no trabalho que dá para construir um relacionamento saudável, faz parecer algo distante do tipo que só acontece em filmes ou livros.

Muitos casais existem como se estivessem em uma competição de um contra o outro e no fim tudo que se ganha são brigas, ressentimentos e feridas que se tornam tão profundas que podem até mesmo afetar todas as relações que essa pessoa tem ou virá a ter na vida.

São mulheres de idades e de histórias de vida diferentes vivenciando algo parecido demais para ser só um punhado de casos isolados. Nossa cultura romantiza demais o sofrimento no amor (ou na vida como um todo, pra falar a verdade), tem muitas mulheres por aí que crescem acreditando que amar é se sacrificar pelo outro, fazer do outro o centro da sua vida e esquecer de si, que só o amor basta, que ciúmes é sinal de paixão e brigas sinônimo de intensidade.

A mesma lógica que acontece nos trabalhos quando normalizando um chefe sem noção ou uma empresa que pouco se importa com quem nela trabalha, nos relacionamentos isso aparece em companheiros que humilham, controlam, invalidam ou simplesmente não cuidam, ou até cuidam, mas basta uma desavença para tudo ser ignorado e você que lute.

Sair de um emprego ruim ou de um relacionamento ruim requer uma coragem imensa, são ciclos e mais ciclos de "não aguento mais" e "ok vamos tentar outra vez" e é assim que muitas de nós começamos a duvidar que relações saudáveis existem mesmo, afinal, todo casal briga, né? Talvez seja eu que estou exigindo demais e quem muito escolhe acaba sem.

Quando esse tipo de pensamento aparece diante de mim eu escuto com o dobro de cuidado, não só como psicóloga, mas também como uma mulher que já esteve nesse lugar e viveu por anos um relacionamento que mais machucava do que contribuía para a minha felicidade. E nem digo isso demonizando o cara, não é como se ele simplesmente acordasse decidido a ser um péssimo companheiro, era só ele existindo com as coisas dele eu com as minhas e os dois se espetando no processo que nem dois cactos.

Quantas vezes você se dispôs a melhorar aspecto x ou y na expectativa que o outro te acompanhasse e nada durou uma semana? Quantas vezes você já conversou, explicou, fez de tudo para que o outro entendesse seu lado, mas antes mesmo de terminar a falar o outro já interrompeu para se defender ou até mesmo atacar? Quantas vezes vamos tentar outra vez? Qual é o limite de tolerância para uma relação que não te faz mais bem?

Eu já vi na prática que nem todo mundo sabe que existem diversas formas de violência, que não é somente bater e machucar o corpo da parceira ou parceiro que é considerado violência, existe formas mais sutis que se disfarçam de temperamento forte, "falo mesmo a verdade", "estava só de cabeça quente", "foi só no calor da raiva que me fez jogar esse guarda roupa em cima de você, por que você me tirou do sério e eu não tenho responsabilidade nenhuma de aprender a me auto regular".

(Isso foi específico demais, eu sei, foi de propósito...)

Ouvir essas desculpas também já fez eu duvidar de mim mesma ou que seria possível mesmo conduzir um desentendimento sem partir para a grosseria, tratamentos de silêncio ou ataques, mas eis que entra agora, o motivo principal de eu estar escrevendo tudo isso em pleno dia dos namorados:

Hoje eu sei que relacionamentos saudáveis são reais e todas essas palavras também são para uma pessoa muito especial para mim! Praticamente postagem sim, postagem não eu falo dele, o cara que me mostrou na prática outra forma de existir a dois.

(É agora que você pode sair à francesa se estiver só e for demais para você ler isso aqui).

É como eu digo lá na página inicial desse blog, quando escrevo meus papéis se misturam, o que eu vivo também reflete no meu trabalho e o que vejo no meu trabalho também me faz pensar no que vivi, até porquê eu amo o que eu faço e psicologia é muito mais do que técnica e teoria.

Hoje eu quero agradecer tudo que aprendi vivendo ao seu lado. Coisas que se não fossem por você eu só teria palavras ensaiadas para oferecer àquelas pessoas que precisam ouvir que sim, relações saudáveis existem e elas merecem muito mais do que estão tendo hoje em dia.

Aprendi que respeito e cuidado estão acima de tudo. Tanto eu quanto você já falamos coisas que magoaram o outro, mas nunca vi você usar minhas fragilidades como arma contra mim, pelo contrário, você as guarda como se fosse uma florzinha muito frágil.

Aprendi que autonomia não ameaça o amor. Celebramos as conquistas (e os textos) um do outro com alegria de verdade, sem competir, sem diminuir, sem julgar aquilo que me faz vibrar. Nunca senti que precisaria escolher entre nossa relação e qualquer outra coisa, que o que quer que eu decida fazer na vida, terei seu apoio e bom senso crítico para contribuir com a construção daquilo.

Aprendi que o amor mora nas ações pequenas e concretas. Nos dias que nenhum dos dois tá afim de levantar, levantamos juntos para dividir a carga de seja lá o que estiver nos cansando no momento. Um combinado simples feito em nossos primeiros dias juntos que honramos como se fosse a promessa mais importante do mundo! Pra mim é y.y

Aprendi que eu posso mais. Sempre que penso que cheguei ao meu limite, eu percebo que consigo um pouco mais quando lembro que aquilo que eu estou fazendo é por você também. Aguento mais um tempinho em pé, aguento dar mais alguns passos, terminar de lavar a louça ou estender as roupas no varal, ainda que algo em mim esteja doendo como sempre está.

Aprendi que minha vulnerabilidade está segura com você. Você já me viu chorar por coisas que eu mesma julguei bobeira, mas nunca riu, minimizou ou disse "é só isso?" ou "nossa, que drama!", você me abraça e permanece ao meu lado. E nem precisa dizer nada, mas você sempre encontra algo incrível para me dizer.

Aprendi que eu posso descansar e ser eu mesma. E talvez tenha sido a lição mais difícil depois de anos de invalidação por todos os lados. O medo instante de errar e sofrer represálias que era tão comum no passado hoje é inexistente e mesmo quando ele dá as caras, você está lá para me lembrar que tudo bem se eu errar, tudo bem ser você mesma. Com isso pude enfim aprender quem sou eu quando não estou em estado de alerta emocional constantemente e descobrir que gosto mesmo de quem eu sou.

Nós não existimos numa performance de relação bem sucedida com fotos e declarações pra todos mundo ver (apesar de ser exatamente isso que estou fazendo agora, rs). Simplesmente somos nós mesmos e isso nos basta.

Toda vez que alguém menciona ter dúvidas sobre aquele relacionamento ser ou não ser bom, saudável ou seguro eu penso em você. Não digo seu nome, é claro, mas é a lembrança de nós dois que sustenta a minha resposta.

Você me deu a certeza que me faltava para olhar nos olhos de uma mulher exausta e dizer com convicção "Existe, eu sei que existem relacionamentos melhores e você com certeza merece."

Se não fosse por você, eu sei que ajudaria essas mulheres, mas com aquela coceirinha chata no juízo, talvez eu fizesse as palavras certas, mas sem acreditar plenamente nelas.

Esse texto é um presente, uma confissão pública de gratidão e amor. O relacionamento saudável não é um mito. É a gente rindo de algo que só nós entendemos, é construir uma vida onde o amor não dói nem exige nossa parca saúde mental, é quando a gente levanta e vai fazer o que tem que ser feito juntos.



Tocando aqui 🧠:

Marisa Monte - Ainda Ben

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