Vivendo Maio de 2026
Se você não sabe do que eu tô falando, tem um post aqui no Bear blog mesmo feito pelo meu companheiro em que ele explica bem direitinho o que são essas páginas matinais. E se por um acaso você quiser ler os textos dos meses anteriores, só clicar na tag que vai estar no final desse texto aqui :)
𖡼.𖤣𖥧𖡼.𖤣𖥧 𖡼.𖤣𖥧𖡼.𖤣𖥧
Ainda faltam 5 anos e alguns meses para eu alcançar essa idade, mas ler aquele texto me fez parar pra pensar: "Ah! Essa aqui é a idade que eu sempre quis ter", porquê quando eu era criança, eu não podia ser criança como as outras e isso me fez passar bastante tempo a sós com muitos livros, tanto que às vezes desconfio (às vezes tenho certeza) que por consequência disso minha mente cresceu muito à frente do meu corpo.
Na adolescência, por mais que eu quisesse, eu não me identificava em nada com as pessoas da mesma faixa etária que eu. Me identificava com alguns adultos e continuava a sós com livros cada vez mais avançados para mim, como por exemplo:
"Eu, Christiane F. 13 anos, drogada e prostituída" um livro que eu nunca esqueci que li quando eu tinha a mesma idade da protagonista.
Ele não tinha na biblioteca e sei que se tivesse Aparecida (a bibliotecária) não me deixaria levar, mas um dia eu vi ele na bolsa de uma das minhas professoras, fiquei curiosa e perguntei como era a história e devo ter feito uma cara muito "uau" para o que ela me contou, pois lembro que rapidinho ela me perguntou se eu queria ler.
Foi o primeiro livro sem ser da biblioteca da escola que eu li, tratei feito um tesouro e lembro dele até hoje. Lembro de levar para todo lugar, de ver as pessoas olhando a capa e falando ou fazendo cara de "caramba", mas ninguém contestou e obviamente eu segui a leitura, e se alguém tivesse contestado ou comentado qualquer coisinha eu já tinha em mente dizer que era para um trabalho da escola u.u.
Quando devolvi, não consegui falar sobre o livro com a professora apesar que ela também não deu muita bola. Lembro também que esse foi o primeiro livro que eu parei pra anotar como tinha sido ler, eu nunca tinha feito nenhuma resenha por conta própria, (recentemente conversei sobre isso com meu companheiro e talvez saia um post legal a respeito do que exatamente é uma resenha pra gente - só não sei se vai ser ele ou eu a escrever) e até hoje acho uma pena que isso se perdeu com o tempo, queria muito rever o que escrevi ali naquela época.
Voltando pra adolescência: Só vim começar a ter alguém pra chamar de amiga na escola no ano seguinte, lembro de cada uma delas, dos seus nomes e de a gente em um círculo em frente a sala de aula brincando de pezinho com quase a turma toda enquanto a professora não chegava.
Eu me identificava muito com uma moça chamada Ana Karenina, especialmente depois que ela (vendo que eu lia pra caramba) me disse que eu era igual a mãe dela, que o nome dela tinha sido inspirado na protagonista de algum livro. Eu pensei na hora "uau queria que meu nome tivesse sido inspirado em uma personagem de livro também! Queria que a mãe dela fosse a minha mãe!" já que eu estava naquela fase de negar tudo que vem da família de origem.
Além dela, nesse grupo, tinha outras 4 garotas, dois pares de irmãs, o que me fazia mais ainda querer ter nascido irmã de Ana Karenina, infelizmente a relação toda se desfez no ano seguinte pois eu, deslumbrada com o fato de finalmente ter feito amizades, reprovei a sexta série (que hoje deve ser o sétimo ano, se não me engano).
Olhando em retrospecto penso que talvez a amizade até tivesse sobrevivido se eu mesma não tivesse ficado tão mal e me isolado totalmente enquanto repetente. Pra mim, uma aluna tão dedicada, inteligente e estudiosa, a filha que nunca dava trabalho, ter repetido de ano era uma vergonha digna de sepuku!
A família de Ana Karenina administrava na época um horto florestal (não se se ainda estão lá) e lembro de no ano seguinte, durante um sábado qualquer minha segunda turma da sexta série ter feito uma caminhada para lá em uma aula de campo. Não sei se a pessoa que nos guiou era o pai dela e fiquei o tempo todo pensando que queria ter coragem de perguntar por ela, mas não fui, é claro, eu nunca fui muito boa em iniciar interações.
Desse dia, o que eu mais lembro é do meu enorme constrangimento de estar de short na frente de tanta gente, estava muito quente e não tinha como ir de calça e, não sei se essa é uma falsa memória ou não, mas lembro de ver várias pessoas cochichando sobre minha perna direita que por causa de uma cirurgia feita aos dez anos, é repleta de cicatrizes e nunca se desenvolveu muito bem sendo até hoje só pele e osso praticamente.
Eu morria de vergonha das minhas pernas e cicatrizes, só consegui começar a usar saias ou vestidos durante a pandemia, já que eu ia ficar apenas em casa mesmo, mas para conseguir sair de casa sem ser de calça e ficar de boas só consegui nos últimos três anos pra cá (com ajuda do meu companheiro).
Desse ano em que repeti de ano adiante foi só ladeira abaixo, me isolei mais ainda nos livros, me senti mais ainda deslocada, interagindo mais com os adultos ao redor e olhe lá, pois eu só interagia com adultos na escola onde a maioria (reconheço hoje em dia) era minimamente progressista, não lembro de ter tido professores de direita por exemplo, mas lembro de muitos que contribuíram para a minha visão de mundo atual. Acho que dei uma sorte danada nesse aspecto.
Vivi o clássico caso da garota certinha, a boa aluna de quem os professores se orgulhavam, mas ninguém prestava muita atenção, ninguém nunca questionou o fato de eu viver sempre sozinha e isolada pelos cantos da escola. Durante toda a minha graduação, inclusive, eu quis atuar na área escolar justamente para me aproximar daqueles que nunca dão trabalho em sala de aula.
Com tudo isso eu sempre senti que tinha muito mais cabeça que a maioria das pessoas da minha idade, mas sabia ao mesmo tempo que algo faltava, que ainda era uma mente juvenil mesmo assim e isso me fazia nunca dividir meus pensamentos com ninguém, pois sabia que chamaria atenção como acontecia na faculdade, onde finalmente eu tive algum espaço para me expressar intelectualmente.
Até hoje acho bizarro as lembranças das vezes que precisei falar qualquer coisa diante da turma e ver todos muito quietinhos prestando atenção em mim ou quando eu me irritava no trabalho por alguma besteira de direita que ouvia de um colega bolsonarista e começava a contra argumentar demonstrando outro ponto de vista.
"Micarla nunca fala, quando fala vocề não consegue ignorar", era o que uma das minhas amigas da época dizia. Na faculdade eu sentia que as pessoas me respeitavam pelo menos, era bom, mas no trabalho elas apenas zuavam mesmo, até hoje bate uma raiva só de lembrar.
Eu nunca consegui conciliar muito bem essa imagem vinda de fora com a minha própria imagem, mas já entendi como funciona e porquê as pessoas me veem assim. Agora que cheguei e avancei uns bons anos na casa dos 30, pelo menos eu sinto que a idade cronológica e a mental estão na mesma página ou bem próximas uma da outra com tudo progredindo lado a lado.
Escrever acaba sendo a minha forma preferida para me expressar, embora eu já consiga desenvolver bem melhor minha fala verbal, seja nos atendimentos, seja conversando com meu companheiro, agora tendo completado mais um mês no exercício das páginas matinais somado às supervisões com a minha quase chará, Carla, eu noto uma facilidade muito maior de desenvolver meu raciocínio clínico enquanto estou estudando os casos que atendo, o que me faz perceber que eu sempre quis ser essa adulta, que eu tô no exato lugar que eu sonhei estar desde que comecei a entender que nem todos os adultos pensam criticamente o mundo em que vivem.
Escrevendo as páginas matinais eu me permito sonhar que isso vai ser lido por alguém no futuro, seja eu, seja outra pessoa e com isso eu vou ser uma boa ancestral (termo que eu vi nesse texto aqui da newsletter do Rodrigo Von Kampen).
Juntando esses dois textos que mencionei aqui e as experiências vividas em Maio, chego em Junho com um pouco mais de clareza sobre o tipo de adulta que eu quero continuar sendo daqui até a hora de morrer.
𔓘 E se quiser trocar uma ideia sobre isso, é só clicar aqui :)
「 Beba água 」
"Eu, Christiane F. 13 anos, drogada e prostituída" um livro que eu nunca esqueci que li quando eu tinha a mesma idade da protagonista.